Hoje fiz uma coisa que nunca havia feito antes. Sentei-me confortavelmente na poltrona de uma livraria enquanto lia um livro. Parece bobagem! Eu sei que muitas pessoas têm esse hábito, mas para mim foi um grande passo. Primeiro porque eu sou tímida e como tal, sofro de egocentrismo agudo.
Toda pessoa tímida tem medo de que seus defeitos sejam tragos à tona e sua perspectiva é tão surreal que ela imagina realmente que todos os seres-humanos estão observado cada detalhe. O tímido não é um humilde, muito pelo contrário. Ele acha que o mundo o vê da forma que ele próprio enxerga o mundo, ou seja, através de grandes lentes amplificadas com uma lupa.
Por isso, foi muito difícil escolher um título e me sentar na poltrona. Pensamentos mil invadiram minha cabeça: “E se pensarem que eu sou uma desocupada”, “E se acharem que eu estou aqui disfarçando para roubar o livro”, “E se...”. Aos poucos, cada poltrona foi sendo ocupada por diversos tipos de pessoas, com variados estilos literários.
Uma menina sentou maravilhada ao abrir “Amanhecer”, um senhor escolheu um revista sobre negócios, uma mãe sentou com sua filha enquanto lia para ela uma história infantil. Outra jovem sentou com uma pilha de livros, aparentemente para escolher qual levaria para casa. Absolutamente ninguém se importava com a minha presença, era como se eu não estivesse ali.
E então estabelecida a sensação de conforto, pude ler tranqüila. O livro escolhido não poderia ser melhor: “Feliz por nada”, de Martha Medeiros. Fiquei lendo durante uma hora e meia totalmente absorta naquelas palavras mágicas. Cheguei à página cem e saí da livraria de alma lavada.
Incrível como uma simples ida casual à livraria pode me trazer sensações tão boas. Além de uma ótima leitura, pude desfrutar da minha exclusiva capa da invisibilidade, expurgando os fantasmas egocêntricos da minha timidez.

